Valor Sentimental: Explicado pela Psicanálise

Valor Sentimental: Explicado pela Psicanálise

Se você acompanhou a temporada de premiações de 2026, com certeza ouviu falar de Valor Sentimental (Sentimental Value). Vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes, consagrado no European Film Awards e vencedor do BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, a obra do diretor norueguês Joachim Trier fez história ao conquistar 9 indicações ao Oscar.

Mas o que faz esse drama familiar ser tão impactante? A resposta está na forma brilhante e dolorosa como o filme explora a mente humana.

Para ajudar você a mergulhar nas entrelinhas dessa obra-prima, preparamos uma análise psicanalítica simplificada. Descubra como traumas de infância, pais ausentes e a busca por aprovação movem os personagens de Stellan Skarsgård e Renate Reinsve.

O Enredo: Um Reencontro Desconfortável

A história acompanha a família Borg. Após a morte da matriarca (uma psicoterapeuta), as irmãs Nora (uma atriz de teatro que sofre com crises de ansiedade) e Agnes (uma historiadora que tenta manter a paz) precisam lidar com o retorno do pai, Gustav.

Gustav é um famoso cineasta, mas também um homem vaidoso e egocêntrico que abandonou as filhas quando eram crianças em nome de sua carreira artística. Ele retorna com um objetivo egoísta: quer usar a antiga e assustadora casa da família para gravar seu novo filme, que retratará o suicídio de sua própria mãe, ocorrido décadas antes. O detalhe mais cruel? Ele quer que sua filha Nora interprete a avó.

Quando Nora recusa a oferta, Gustav prontamente contrata uma estrela de Hollywood (Rachel Kemp, vivida por Elle Fanning) para o papel, desencadeando uma tempestade de ciúmes, raiva e mágoas não resolvidas.

O Peso do Passado: O Trauma Transgeracional

Você já sentiu que carrega uma tristeza que não é exatamente sua? A psicanálise chama isso de trauma transgeracional.

Em Valor Sentimental, descobrimos que a avó de Nora e Agnes se suicidou após sofrer torturas na Segunda Guerra Mundial. Gustav, que era apenas uma criança (tinha 7 anos) quando a mãe morreu, nunca superou essa dor. Em vez de lidar com o luto, ele se "congelou" emocionalmente e focou obsessivamente no cinema.

O problema é que traumas não curados são passados adiante. Gustav repetiu o ciclo: ao fugir da própria dor, ele abandonou as filhas, transferindo a elas a mesma sensação de rejeição e desamparo que sentiu na infância. A ansiedade paralisante de Nora é, no fundo, o eco do desespero silencioso de sua avó e da frieza de seu pai.

A Casa Assombrada Pelos Sentimentos

Um dos grandes destaques do filme é a antiga casa da família, construída no estilo tradicional norueguês "dragestil" (estilo dragão), com madeira escura e detalhes vermelhos.

Na psicanálise do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, o ambiente em que crescemos precisa ser uma base segura (um holding). Se essa base é frágil, a criança cresce com medo do mundo. O filme deixa isso claro logo no início, quando uma redação de infância de Nora descreve a casa como tendo "fundações frágeis". A casa de Valor Sentimental não é um lar acolhedor; ela é o reflexo das brigas dos pais e da falta de segurança emocional. O amor ali nunca foi um lugar seguro.

Por que Nora usa "Máscaras"? (O Falso Self)

Nora é uma atriz brilhante, mas sofre de ataques de pânico nos bastidores. Por que a atuação é tão importante para ela?

Quando uma criança cresce com pais negligentes, ela aprende a esconder quem realmente é para não ser rejeitada novamente. Ela cria o que a psicanálise chama de Falso Self — uma máscara para agradar os outros. Ao se tornar atriz, Nora encontra uma forma de controlar a rejeição: no palco, ela sabe exatamente o que dizer (o roteiro) e tem a garantia de que será amada (os aplausos). Atuar é a sua armadura.

A Escola Psicanalítica que Explica o Filme

Se fôssemos colocar a família Borg no divã, a abordagem que melhor explicaria o filme seria a Escola Inglesa das Relações Objetais, liderada por Melanie Klein e Donald Winnicott.

Essa linha da psicanálise foca em como nossas primeiras relações moldam nossa mente adulta. Melanie Klein explica o sentimento de inveja e gratidão. Quando Gustav oferece o papel principal à Nora, ele está oferecendo algo "bom" (uma chance de brilhar e de se conectar com ele). Mas Nora recusa violentamente. Por quê? Porque aceitar o roteiro exigiria que ela sentisse gratidão e dependência por um pai que a destruiu no passado. Para não se sentir vulnerável, ela prefere destruir a oportunidade.

No fim das contas, Valor Sentimental nos ensina que não podemos simplesmente apagar nossa história. A cura não vem de fugir do passado, mas de ter a coragem de olhar para ele e ressignificá-lo através da arte e do perdão. Somos todos diretores e atores de nossas próprias neuroses.



O Vento na Psique: Melancolia, Real e Transformação

O vento pode ser mais do que clima — pode ser um símbolo da nossa vida emocional.

O vento é uma imagem simples, mas profundamente simbólica quando pensamos na vida emocional. Em várias abordagens da psicanálise e da psicologia profunda, ele pode representar estados como tristeza, vazio e até transformação interior.

De forma geral, o vento simboliza algo que se sente, mas não se controla totalmente — assim como muitas experiências emocionais humanas.


❄️ O vento frio e constante: a tristeza que permanece

Na teoria de Melanie Klein, as emoções podem ser vividas como uma espécie de “clima interno”.

Um vento frio e contínuo representa a experiência da perda emocional profunda — quando sentimos que algo importante foi danificado ou se foi para sempre. Isso pode gerar tristeza persistente, culpa e uma sensação de vazio silencioso.

Não é uma dor intensa e explosiva.
É um frio emocional que permanece.


🌫️ O vento invisível: aquilo que sentimos, mas não entendemos

Para Jacques Lacan, existe algo na experiência humana que não pode ser totalmente explicado ou colocado em palavras. Ele chamou isso de “o real”.

O vento invisível simboliza justamente isso: algo que não vemos, mas sentimos claramente.

É aquela angústia sem motivo claro, aquela tristeza sem explicação, aquela sensação estranha de vazio que simplesmente aparece.

Não é apenas uma emoção comum — é o contato com algo profundo que escapa ao nosso entendimento.


🌬️ O vento que transforma: tristeza e renovação juntas

Na psicologia profunda de Carl Gustav Jung, o vento também pode ser um símbolo de mudança interior.

Ele pode levar coisas embora, mas também abrir espaço para o novo.
Por isso, momentos de melancolia nem sempre são apenas sofrimento — às vezes são fases de transformação emocional.

Quando algo termina dentro de nós, outra parte pode estar começando a se formar.


🌌 O que tudo isso significa?

Juntando essas ideias, o vento pode representar três experiências humanas ao mesmo tempo:

✔ a dor da perda
✔ o contato com o que não conseguimos explicar
✔ o movimento de transformação interior

Por isso, sentir melancolia nem sempre é apenas sofrer. Às vezes é o sinal de que algo dentro de nós está mudando — mesmo que ainda não saibamos o quê.

A vida emocional, como o vento, está sempre em movimento.

O Luto na Psicanálise e na Visão Espírita de Léon Denis

 
Uma representação simbólica do luto humano, onde a separação pela morte é vivida como travessia interior entre o vínculo psíquico e a dimensão espiritual da dor

Psicologia do inconsciente e sentido espiritual da dor

A perda de um familiar ou de alguém profundamente amado é uma das experiências humanas mais universais e desestruturantes. Ao longo do tempo, diferentes campos do saber tentaram compreender o luto, sua dor, seus efeitos e seus caminhos de elaboração.

A psicanálise, enquanto disciplina clínica e teórica, aborda o luto como um processo psíquico fundamental para a reorganização da subjetividade após a perda. Já Léon Denis, no livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor, propõe uma leitura espiritual e filosófica da dor, vinculada à evolução da alma e à continuidade da vida após a morte.

Mas essas abordagens dialogam entre si? São complementares ou falam de campos totalmente distintos? É isso que exploramos a seguir.


1. O luto na psicanálise: elaborar a perda no psiquismo

Freud e o luto como trabalho psíquico

Sigmund Freud introduziu a noção clássica de luto em seu texto Luto e Melancolia (1917). Para ele, o luto é um processo normal, ainda que doloroso, que ocorre quando o sujeito perde um objeto de amor — geralmente um familiar ou alguém com forte vínculo afetivo.

Esse processo envolve:

  • O reconhecimento da realidade da perda
  • A retirada gradual do investimento libidinal do objeto perdido
  • A reorganização do ego para novos vínculos e sentidos

Freud enfatiza que o luto não é patológico, mas exige tempo, atravessamento da dor e elaboração simbólica. O sofrimento não é eliminado — ele é trabalhado.

Contribuições pós-freudianas

Outras escolas psicanalíticas aprofundaram essa compreensão:

  • Melanie Klein observou que o luto reativa perdas primitivas e fantasias inconscientes ligadas às primeiras relações objetais.
  • Jacques Lacan compreendeu o luto como uma operação simbólica: a perda precisa ser nomeada e inscrita na linguagem.
  • Autores contemporâneos descrevem o luto complicado quando a dor não encontra vias de simbolização, especialmente em perdas traumáticas.

Em todas essas abordagens, a psicanálise mantém um ponto central: o luto diz respeito à reorganização do sujeito vivo, não à realidade do falecido após a morte.


2. Léon Denis e o sentido espiritual da dor

Publicado originalmente em 1905, O Problema do Ser, do Destino e da Dor é uma das obras centrais de Léon Denis, um dos principais pensadores do espiritismo filosófico.

Diferente da psicanálise, Denis não investiga a dor sob o prisma do inconsciente ou da clínica, mas como parte de uma lei espiritual universal. Para ele:

  • O ser humano é essencialmente um espírito imortal
  • A dor não é punição, mas instrumento de aprendizado e evolução
  • As perdas fazem parte do desenvolvimento moral da alma ao longo das existências

No caso da perda de entes queridos, Denis afirma que a morte não rompe os laços do amor, apenas os transforma. O luto pode ser atravessado com maior serenidade quando há compreensão da continuidade da vida espiritual.

Aqui, a dor não é apenas elaborada psicologicamente, mas ressignificada espiritualmente.


3. Psicanálise e Léon Denis: diálogo ou campos distintos?

Diferenças fundamentais

Do ponto de vista teórico, as abordagens partem de pressupostos diferentes:

  • A psicanálise é clínica, laica e centrada no inconsciente
  • Léon Denis parte de uma cosmologia espiritual baseada na imortalidade da alma

A psicanálise não valida a sobrevivência da consciência após a morte, enquanto o espiritismo compreende a vida como contínua além do corpo físico.

Pontos de contato possíveis

Apesar disso, há intersecções simbólicas importantes:

  • Ambas reconhecem a necessidade de atravessar a dor
  • Ambas compreendem o sofrimento como potencialmente transformador
  • Ambas alertam para os riscos da negação da perda

Enquanto a psicanálise busca a elaboração simbólica da ausência, Léon Denis propõe a ressignificação espiritual da separação.


4. Uma leitura integrativa: psique e espírito

Em uma abordagem integrativa, como propõe a espiritualidade holística, é possível compreender que:

  • A psicanálise ajuda o sujeito a organizar a experiência emocional da perda
  • A visão espiritual pode oferecer sentido, esperança e horizonte transcendental

O desequilíbrio ocorre quando a espiritualidade é usada para negar a dor psíquica ou quando a clínica ignora a dimensão existencial do sofrimento.

Quando bem articuladas, essas perspectivas não se anulam — atuam em níveis diferentes da experiência humana.


Conclusão

A psicanálise e Léon Denis falam de lugares distintos, mas ambas reconhecem que a dor da perda é um momento decisivo na vida humana.

A psicanálise ensina a elaborar a ausência e reconstruir o eu. Léon Denis convida a compreender a dor como passagem, aprendizado e expansão da consciência.

Entre o inconsciente e o espírito, o luto pode ser compreendido como um rito de travessia — que transforma, amadurece e amplia a consciência.